O crescimento do tronco das árvores tropicais é menor em anos em que a estação seca é mais intensa e quente do que o normal. Esta é a principal descoberta de um estudo global sobre o crescimento de árvores tropicais publicado na Nature Geoscience, liderado por pesquisadores da Wageningen University & Research, Universidade Estadual de Campinas e University of Arizona. O estudo é baseado em uma nova rede global de anéis de crescimento baseado em mais de 14.000 séries de dados de crescimento anual de árvores de 350 localidades nos trópicos. Os pesquisadores encontraram que em regiões mais áridas ou mais quentes, o efeito negativo no crescimento é mais acentuado em anos mais secos e mais quentes. Estes resultados sugerem que as mudanças climáticas podem aumentar a sensibilidade das árvores tropicais a flutuações climáticas.
Durante muito tempo, ecólogos assumiam que árvores tropicais não produziam anéis de crescimento devido à falta de invernos frios nos trópicos. Nas últimas décadas, no entanto, a formação de anéis de crescimento já foi comprovada para centenas de espécies de árvores tropicais. Segundo o coautor Prof. Peter Groenendijk da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP: “Os anéis de crescimento contêm uma riqueza de informações sobre a história do crescimento das árvores. Neste estudo, exploramos esse potencial. Pela primeira vez, obtivemos um panorama Pantropical de como o crescimento das árvores tropicais reage a flutuações climáticas”. Este estudo foi um esforço de colaboração internacional, para o qual 100 autores contribuíram com dados de anéis de crescimento amostrados em 30 países tropicais e subtropicais.
Sequestro de CO2
Os resultados deste estudo ajudam a compreender as grandes flutuações na absorção de carbono pela vegetação tropical ao nível mundial. O primeiro autor, Prof. Pieter Zuidema da Wageningen Univeristy & Research: “Simulações de modelos de dinâmica de vegetação mostram que durante anos mais quentes ou mais secos, a vegetação tropical cresce menos e, portanto, absorve menos CO2 da atmosfera. Mas, até agora, faltavam medições reais do crescimento desta vegetação. Os nossos resultados fornecem assim uma base empírica a estes modelos globais”.
Os autores ficaram surpresos com a descoberta de que o clima durante a estação seca teve um efeito mais forte no crescimento das árvores do que o clima durante a estação chuvosa. A coautora Dra. Valerie Trouet, da Universidade do Arizona: “Sabemos que a fotossíntese e a produção de madeira de árvores tropicais geralmente atingem o seu pico durante a estação das chuvas. Então, por que é que as flutuações anuais no crescimento do tronco de árvores dependem da estação seca? Isso nos surpreendeu e intrigou! A nossa explicação é que a água está disponível por mais tempo durante anos com estações secas mais húmidas ou com temperaturas mais amenas. Em termos simples, a estação de crescimento é mais longa, o que leva a um maior crescimento das árvores”.
Preenchendo uma lacuna
Este estudo preenche uma importante lacuna nos dados de anéis de crescimento. Pieter Zuidema: “Em mapas globais mostrando os locais de estudos com anéis de crescimento, tipicamente há um buraco no meio, nos trópicos. A nossa rede preenche essa lacuna de dados tropicais”. Juntamente com a publicação do estudo, os dados de crescimento de árvores de mais de 100 novas localidades de estudo serão disponibilizados na base de dados internacional de anéis de crescimento, o International Tree-ring Databank (ITRDB; https://www.ncei.noaa.gov/products/paleoclimatology/tree-ring). Pieter Zuidema: “Desta forma, os dados dos anéis de árvores que reunimos estarão disponíveis gratuitamente para todos”.
Mudanças climáticas
Devido ao aquecimento global, espera-se que a temperatura nas localidades de estudo aumente meio grau a cada década no futuro. Os autores esperam que estações secas mais quentes e áridas terão um efeito negativo no crescimento das árvores tropicais. Se o crescimento mais lento aumentar a probabilidade de mortalidade das árvores, vegetações tropicais podem tornar-se mais frequentemente uma fonte de CO2 em vez de um sumidouro deste gás de efeito de estufa.
